quarta-feira, 20 de abril de 2011

PLANEJAMENTO PASTORAL DE UM GRUPO DE JOVENS

PLANEJAMENTO PASTORAL DE UM GRUPO DE JOVENS


Apresentação

A Pastoral da Juventude do Estado do Espírito Santo completa 25 anos de existência, de fé e vida no meio da juventude do campo e da cidade.

Em todo esse tempo, a PJ Capixaba se preocupou com o processo de formação da fé de seus militantes, como também, do projeto de vida, que cada um, cada uma iria construir a partir do que fosse vivido, experimentado nas reuniões, encontros, acampamentos juvenis (retiros), assembléias etc.

É um desejo do Instituto Capixaba de Juventude do Estado do Espírito Santo – ICJ-ES, ajudar os grupos de jovens na construção de seus projetos de vida a partir da reflexão sobre planejamento pastoral.

As dicas que se seguem não estão fechadas, são apenas o início da conversa; cada grupo de jovem, cada jovem, buscará na medida do possível se aprofundar na leitura e nos temas aqui abordados.

Texto bíblico
Iniciamos a caminhada no planejamento pastoral de um grupo de jovens a partir de um texto bíblico. A Palavra de Deus sempre ilumina os passos da PJ Capixaba e sempre irá iluminar os passos dos grupos de jovens.

Usamos as citações da TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia (São Paulo: Loyola, Paulinas, 1996) na íntegra.

Citamos o encontro de Moisés com Iitrô (Jetro) em Ex 18, 1-27.

Um planejamento bem feito, transforma a vida grupal e pessoal, tornando-se fácil para organizar e administrar.
1 Iitrô, sacerdote de Midian, sogro de Moisés, ouviu falar de tudo o que Deus havia feito por Moisés e por Israel, seu povo: o SENHOR fizera Israel sair do Egito! 2 Iitrô, sogro de Moisés, acolheu Siporá, mulher de Moisés – depois que ela tinha sido mandada de volta – 3 e seus dois filhos: um deles chamado Guershom – migrante-ali – pois havia dito: “Sou um migrante em terra estrangeira”; 4 o outro recebeu o nome de Eliézer – meu Deus é socorro –, pois: “Foi o Deus de meu pai que veio em meu socorro e me livrou da espada do Faraó”. 5 Iitrô, sogro de Moisés, seus filhos e sua mulher foram ao encontro de Moisés, no deserto, onde estava acampado, junto à montanha de Deus. 6 Ele mandou dizer a Moisés: “Eu, Iitrô, teu sogro, estou vindo ao teu encontro, bem como tua mulher, e seus dois filhos com ela”. 7 Moisés saiu ao encontro do sogro, prostrou-se e o beijou. Trocaram saudações e entraram na tenda.

8 Moisés contou ao sogro tudo o que o SENHOR havia feito a Faraó e ao Egito por causa de Israel, todas as dificuldades surgidas no caminho, das quais o SENHOR os tinha livrado. 9 Iitrô exultou com todo o bem que o SENHOR tinha feito a Israel libertando-o da mão dos egípcios. 10 E Iitrô disse: “Bendito seja o SENHOR, que vos libertou da mão dos egípcios e da mão do Faraó, que libertou o povo da mão dos egípcios! 11 Agora reconheço que o SENHOR foi maior que todos os deuses, não obstante a fúria deles contra os seus”. 12 Iitrô, sogro de Moisés, participou de um holocausto e de sacrifícios oferecidos a Deus. Aarão e todos os anciãos de Israel vieram comer a refeição diante de Deus, com o sogro de Moisés.

13 Ora, no dia seguinte, Moisés sentou-se para julgar o povo, e o povo ficou diante de Moisés, desde a manhã até o anoitecer. 14 O sogro de Moisés viu tudo o que ele fazia pelo povo. “Que estás fazendo pelo povo?”, disse ele. “Por que atendes tu sozinho, enquanto o povo todo fica postado diante de ti, da manhã até a noite?” 15 Moisés respondeu ao sogro: “É que o povo vem a mim para consultar a Deus. 16 Se tem um litígio, eles me procuram. Julgo a questão que cada um tem com seu próximo e dou a conhecer os decretos de Deus e suas leis”. 17 O sogro de Moisés lhe disse: “Tua maneira de agir não é boa. 18 Vais te esgotar, e o mesmo acontecerá com este povo que está contigo. A tarefa é muito pesada para ti. Não podes cumpri-la sozinho. 19 Agora, ouve a minha voz! Dou-te um conselho, e que Deus esteja contigo! Sê, pois, o representante do povo diante de Deus: apresentarás os problemas a Deus, 20 informará as pessoas sobre os decretos e as leis, fazendo-as conhecer o caminho a seguir e a conduta a tomar. 21 E mais: escolherás, dentre todo o povo, homens de valor tementes a Deus, dignos de confiança, incorruptíveis, e os estabelecerás como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez. 22 Eles julgarão o povo permanentemente. A ti apresentarão só os assuntos mais graves; o que for menos importante, eles mesmo julgarão. Alivia a tua carga. Que eles te ajudem a carregá-la. 23 Se fizeres isso, Deus te dará as suas ordens, tu poderás agüentar e, além disso, todo esse povo voltará para casa em paz”. 24 Moisés escutou a voz de seu sogro e fez tudo o que ele lhe dissera. 25 Em todo Israel, Moisés escolheu homens de valor e os pôs à frente do povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez. 26 Eles julgavam o povo permanentemente. A Moisés apresentavam o que era mais grave, mas o que era menos importante, eles mesmo o julgavam.

27 E Moisés deixou partir seu sogro, que voltou à sua terra.

Algumas questões ajudarão a entender melhor o texto:
1. Qual é o contexto da passagem bíblica? O momento era favorável para o encontro entre Moisés e o seu sogro? Por quê?
2. Qual é o resultado do conselho dado por Iitrô? Ele serviria para nossos grupos hoje? Por quê?
3. O que pode ser aproveitado como compromisso prático do texto bíblico para a nossa vida em grupo de jovens?


Conceitos e Definições

O que é Planejamento?

É um processo de tomada de decisões. Se entende processo como uma série de ações, de reuniões, discussões, reflexões e decisões envolvendo todos os participantes do grupo de jovens. É pensar antes, durante e depois da ação.

O que é Ação?

É o ato de interferir na realidade. Este ato pode ser planejado ou não. No primeiro caso nós teremos uma ação que tem tudo para ser eficaz e que provocará transformações. No segundo caso nós teremos ativismo, que certamente não vai levar a nada. Irá deixar todo mundo iludido de ter feito uma coisa boa, nada mais do que isso.

O planejamento participativo é um processo altamente importante porque é profundamente questionador.

Quem se acha o dono da verdade, quem é autoritário, quem é acomodado, não quer saber de planejamento.

Dentro da ação se faz distinção entre a pessoa ser eficaz, ser eficiente e ser efetivo:

O que é eficaz?

Refere-se a fazer o que deve ser feito. Este conceito tem a ver com o foco em uma determinada direção (visão) e concentração de energia (recursos humanos, materiais e financeiros) para a execução da missão.

O que é eficiente?

Refere-se a como fazer o que tem para ser feito. Este conceito refere-se a como as “coisas” são feitas, aos valores, à visão, comportamentos, atitudes, métodos, procedimentos e estilos e está na presente em toda a empresa.

O que é efetivo?

Refere-se a fazer certo as coisas certas, com qualidade. Este conceito engloba os dois anteriores, acrescido da qualidade.

O que é Plano?

É o registro das decisões tomadas participativamente pelo grupo que esteve envolvido no processo de planejamento.

Planejamento não é fazer Plano e nem tampouco escrever um cronograma ou um calendário de atividades pura e simplesmente. Nisso tudo, o mais importante é o processo de tomada de decisões (o planejamento), e não o registro dessas decisões (o plano em si).

Três Metodologias de Planejamento

1ª. metodologia: planejar para o grupo – o poder é exercido de maneira dominadora, ditatorial.

A participação do grupo quanto à preparação / elaboração do plano é nula, quanto à sua execução, é imposta, e quanto resultado, é imposto.

2ª. metodologia: planejar com o grupo – o poder é exercido como um poder a serviço.

A participação do grupo na preparação / elaboração do plano é controlada, na execução do plano, acontece a partir de uma conciliação, e no resultado do plano é de uma forma negociada.

3ª. metodologia: é o planejamento do grupo – o poder é exercido como um serviço.

A participação do grupo tanto na preparação / elaboração do plano, quanto em sua execução e no seu resultado é co-responsável e de co-munhão.

Partes de um Planejamento

Estamos buscando compreender juntos como se realiza um planejamento, não é mesmo?

Para descrever isso precisamos nos orientar por alguns passos metodológicos. A palavra metodologia é de origem grega (metà = através de; odos = caminho), e significa uma ação realizada através de um caminho constante e seguro.

Um planejamento é composto de três partes essenciais:

a) Um ponto de referência, chamado marco referencial.

b) Uma tomada de pulso, chamada diagnóstico.

c) Uma organização das ações, chamada prognóstico.

O Marco Referencial

É o ponto de referência de um planejamento pelo qual se vai orientar o grupo, por onde ele precisa seguir com o seu trabalho, perseguindo assim o que deseja.

É a primeira parte do planejamento que tem três partes bem distintas:

1. Marco Situacional – descreve a realidade onde desenvolvemos nossa ação.

2. Marco Doutrinal – diz para que nós vamos agir.

3. Marco Operativo – nos orienta como vamos realizar nossa ação.

O que é o marco situacional?

É a parte do planejamento que descreve a realidade em que vivemos e trabalhamos, ou em que vamos trabalhar e viver. É o grupo de jovens falando e descrevendo sobre o chão em que pisa, sobre o ambiente todo, sobre a vida em todos os sentidos.

O que é o marco doutrinal?

É a parte do planejamento que vai indicar para que o grupo está fazendo o planejamento e escrevendo um plano. Em outras palavras, pretende mostrar onde o grupo quer chegar com o auxílio do plano realizado. É o nosso sonho, a nossa esperança de realização maior, mas com respeito, encontro e diálogo.

O que é o marco operativo?

É a tomada de posição do grupo que está fazendo o planejamento, com relação à linha de ação a ser assumida para transformar a sociedade em que vive. Indica como o grupo quer agir.

É o momento de tomar decisões concretas sobre o grupo vai se organizar de modo planejado e assumido por todos. Neste ponto é preciso que fique bem claro a co-responsabilidade na busca da maneira de agir que vai ser assumida por todos os seus membros para levar a cabo o plano que foi escrito pelo grupo de jovens.

O Diagnóstico

Sem estabelecer antes um marco referencial é impossível fazer qualquer diagnóstico, porque faltariam os critérios de comparação entre o real e o ideal.

É preciso lembrar que: para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve!

A palavra vem do grego, διαγηοστικόη, seu significado no latim diagnosticu (dia = "através de, durante, por meio de" + gnosticu = "alusivo ao conhecimento de"), vem a ser:

1. Conhecimento (efetivo ou em confirmação) sobre algo, ao momento do seu exame.

2. Descrição minuciosa de algo, feita pelo examinador, classificador ou pesquisador.

3. Juízo declarado ou proferido sobre a característica, a composição, o comportamento, a natureza etc. de algo, com base nos dados e/ou informações deste obtidos por meio de exame.

Diagnóstico pastoral é um discernimento cristão da realidade, ponto de partida para uma ação transformadora que procura perceber os avanços conseguidos; constatar os limites, as dificuldades, os problemas; estabelecer as necessidades mais urgentes (as prioridades) para a construção do Reino de Deus.

Para a realização de um bom diagnóstico deve-se levar em conta alguns passos concretos:

1º. Passo – AVANÇOS.

A palavra avanços, quer dizer: coisas boas que foram realizadas pelo grupo.

2º. Passo – LIMITES.

A palavra limites, quer dizer: o que o grupo não conseguiu fazer; o que atrapalhou a caminhada do grupo.

Para resolver corretamente um problema deve-se responder às seguintes perguntas: Como se manifesta o problema? Quais são seus reais dados indicadores? Quais as suas causas aparentes, imediatas, secundárias, principais? Quais os aspectos que o problema atinge?

3º. Passo – NECESSIDADES.

A palavra necessidades, quer dizer: tudo aquilo que o grupo precisa fazer.

A partir dos avanços e dos limites, o grupo deve determinar, listar as necessidades mais urgentes em termos de reforçar os avanços e superar os limites e os problemas.

As necessidades que são possíveis e realizáveis são determinadas a partir dos critérios estabelecidos no marco doutrinal e no marco operativo.

Entre as necessidades que o grupo irá constatar a partir do marco doutrinal e do marco operativo, as que serão mais urgentes de serem realizadas serão chamadas de prioridades e devem ser as primeiras a serem enfrentadas.

Somente dando cada passo, um de cada vez, é que com clareza o grupo conseguirá realizar o seu objetivo.

O Prognóstico

No diagnóstico procuramos definir e classificar as principais necessidades (prioridades) que afetam a nossa ação. Agora trata-se de fazer um prognóstico para enfrentar essas necessidades e problemas ou para reforçar as ações que já são sinal do Reino de Deus, a fim de transformar a situação existente.

A palavra vem do grego, προγνωστικό, seu significado no latim prognosticu (pro = "antecipado, anterior, prévio" + gnosticu = "alusivo ao conhecimento de"), vem a ser:

1. Conhecimento (efetivo ou a se confirmar) antecipado ou prévio sobre algo.

2. Conjectura sobre o desenvolvimento de um negócio qualquer, de uma situação, etc.

3. Juízo médico, baseado no diagnóstico e nas possibilidades terapêuticas, acerca da duração, evolução e termo de uma doença.

4. Predição, agouro, presságio, profecia, relativos a qualquer assunto.

No prognóstico é necessário registrar ações concretas em passos determinados; indicar por quanto tempo vai durar o que se programa para buscar soluções para as urgências constatadas; ter presente as reais possibilidades de execução, quais pessoas, que recursos.

Dentro das partes de um planejamento é nessário saber o que é um objetivo, o que são políticas e estratégias, o que são rotinas ou atividades permanentes, as instruções de execução, e por último , e não menos importante a avaliação do planejamento. Ainda animados? Vamos a elas!

O que é um Objetivo?

É a expressão do que se quer alcançar (o que?) e também a expressão da razão pela qual se deseja alcançar determinado resultado na ação, a sua finalidade (para que?).

É o resultado final, perseguido por ações concretas que devam ser bem definidas; desencadeem um processo de mudanças de atitudes nas pessoas; apresentem razões que convençam; durem um tempo determinado; interfiram na estrutura existente; provoquem revisão, transformação e mudanças na estrutura viciada; que levem a construção de novos paradigmas.

O que são Políticas e Estratégias?

Num processo de planejamento, o que são políticas?

São linhas comuns de ação assumidas por todas as pessoas envolvidas, que dão direção para tudo o que se faz evitando dispersão de forças e a contradição das ações.

Política é a denomina arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa).

Nos regimes democráticos,a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.

A palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-Estado chamadas pólis, nome do qual se derivaram palavras como politiké (política em geral) e politikós (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que estenderam-se ao latim politicus e chegaram às línguas européias modernas através do francês politique que, em 1265 já era definida nesse idioma como "ciência do governo dos Estados".

O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.

Nem tudo o que se faz em nossos serviços, é novidade. Há coisas que se repetem sempre e são imprescindíveis para levar pra frente nossos objetivos. Além disso, nem todos fazem a mesma coisa. Com o passar do tempo podemos estar fazendo coisas sem saber para que, só por pura repetição. Do mesmo modo, podemos estar fazendo ações diferentes sem unidade entre elas. Cada um puxando para o seu lado.

Mesmo fazendo ações diferentes podemos agir todos, todas, na mesma direção. As políticas dão direção e unidade para todas as ações. Elas nos empurram para a ação. Através das políticas pode-se descobrir a identidade de um grupo organizado.

Num processo de planejamento, o que são as estratégias?

Cada política de ação deve ter algumas estratégias que assinalam alternativas, formas ou modos diferentes de concretizá-las. Elas são formas de ação para concretizar determinadas políticas. Não pode haver política de ação sem estratégia de ação.

Estratégia são propostas ou sugestões de ação para tornar concreta determinada política.

É a forma de pensar no futuro, integrada no processo decisório, com base em um procedimento formalizado e articulador de resultados.

A palavra vem do grego, stratègós (de stratos, "exército", e "ago", "liderança" ou "comando" tendo significado inicialmente "a arte do general") e designava o comandante militar, à época da democracia ateniense.

O idioma grego apresenta diversas variações, como strategicós, ou próprio do general chefe; stratégema, ou estratagema, ardil de guerra; stratiá, ou expedição militar; stráutema, ou exército em campanha; stratégion, ou tenda do general, dentre outras.

O mais conhecido livro de estratégias militares e que é muito usado nas áreas de administração e marketing chama-se A Arte da Guerra, de Sun Tzu.

Rotinas ou Atividades Permanentes

A maior parte do tempo do grupo é ocupada por ações que se repetem continuamente. Sao as chamadas rotinas.

Elas são importantes porque dão o suporte para qualquer atividade que se queira fazer. Por isso, há necessidade de realizá-las planejadamente.

Elas devem ser realizadas com clareza, para algo definido.

Não podem ser feitas como ações mecânicas e formais, sem finalidade e sem compreensão humana do que se faz.

Instruções de Execução

O plano está pronto e agora?

É preciso, apresentar algumas instruções detalhadas para ver como levar em frente a execução pretendida. As instruções indicarão:

• Responsabilidades pela elaboração, execução e avaliação do plano em diferentes níveis e setores.

• Alcance do plano e sua relação com outros planos do mesmo setor, em níveis diferentes, e até com o plano global.

• Como e quem animará a elaboração dos planos anuais, num plano de médio prazo.

Avaliação

Todo o processo de planejamento se completa com a avaliação. A avaliação não é a última coisa a ser feita porque deve ser constante. É preciso ver até que ponto o grupo está sendo fiel ao que planejou e até que ponto o que foi planejado está correspondendo às necessidades da realidade sempre em contínua mudança. Por isso, a avaliação do plano deve ser feita a parte a parte e a partir do todo.

A avaliação confronta os resultados desejados (objetivos), com os resultados alcançados para analisar as causas dos acertos ou dos desvios ocorridos.

A avaliação busca, ainda, perceber as falhas e os acertos de organização e de emprego de recursos, a adaptação dos objetivos à realidade, bem como as falhas e os acertos das políticas e das estratégias.

O plano deverá determinar alguns elementos que ajudarão a fazer uma avaliação adequada.

a) Critérios de Avaliação

Constam de algumas linhas básicas expressas no plano e que servirão de base para toda e qualquer avaliação que fizermos. Esses critérios levarão em conta: 1. O plano em sua globalidade; 2. O plano em suas partes (projetos).

b) Periodicidade da Avaliação

O grupo percebe, por exemplo, que num plano trienal, a avaliação não pode ser feita somente após os três anos de execução do plano. No mínimo ela será feita: 1. No final de cada objetivo (projeto) realizado; 2. Por ocasião da preparação do plano anual; 3. Na preparação do plano trienal.

c) Instrumental de Avaliação

Um instrumental adequado de avaliação (pesquisa de campo, roteiros, questionários, caixinha de sugestões) mais ou menos unificado para todos os setores do serviço contribuirá muito para: 1. Localizar os problemas e as dificuldades que ocorreram no desenvolvimento da ação, do projeto; 2. Fazer o confronto do resultado obtido com o que foi planejado; 3. Descobrir as causas dos desvios das ações; 4. Encontrar alternativas que orientem as ações futuras.

São esses os anexos a um plano de atividades. As instruções de execução e a avaliação.

Na medida em que eles forem devidamente elaborados serão de profunda importância para que o plano, como instrumento de transformação, seja verdadeiramente uma ferramenta indispensável que auxiliará o grupo nas mudanças que perseguem em vista da concretização da Civilização do Amor: o Reino de Deus!



Emerson Sbardelotti

Estudante do Bacharelado em Teologia do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo – IFTAV.

Turismólogo e Historiador.

Autor de O Mistério e o Sopro – roteiros para acampamentos juvenis e reuniões de grupos de jovens. Brasília: CPP, 2005.

Autor de Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007.

Coordenador teológico do Instituto João Maria Vianney – Teologia para Leigos/as – Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha-ES.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

LOGOMARCA 01 DA PJ CAPIXABA

Logomarca da PJ Capixaba:

Emerson Sbardelotti (Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha-ES - assessor e agente de pastoral leigo) pegou a bandeira do Estado do Espírito Santo, e mostrou para Thiesco (Secretário Nacional da PJ) que a montou uma cruz estilizada a partir da logomarca oficial da PJ.

Nascia assim, no dia 10 de janeiro de 2011 a Logomarca da PJ Capixaba dentro das cores da bandeira do Estado do Espírito Santo.

A Logomarca foi criada a pedido do ICJ - ES e está a disposição da PJ Capixaba para ser usada nas comemorações em torno dos seus 25 anos de caminhada no Estado do Espírito Santo, sem ônus pela utilização.

LOGOMARCA 02 DA PJ CAPIXABA

Logomarca da PJ Capixaba:

Emerson Sbardelotti (Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha-ES - assessor e agente de pastoral leigo) pegou a bandeira do Estado do Espírito Santo, e mostrou para Thiesco (Secretário Nacional da PJ) que a montou uma cruz estilizada a partir da logomarca oficial da PJ.

Nascia assim, no dia 10 de janeiro de 2011 a Logomarca da PJ Capixaba dentro das cores da bandeira do Estado do Espírito Santo.

A Logomarca foi criada a pedido do ICJ - ES e está a disposição da PJ Capixaba para ser usada nas comemorações em torno dos seus 25 anos de caminhada no Estado do Espírito Santo, sem ônus pela utilização.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS SAGRADAS ESCRITURAS - ROTEIRO DE ESTUDO 01

ROTEIRO 01


Dois Livros de Deus!

Deus escreveu dois livros para nós: o primeiro foi a VIDA!

Este livro deveria ser transparente, mas o pecado do ser humano misturou as letras, e a vida não fala nem acontece como deveria.

O segundo foi a BÍBLIA!

E por quê? Para nos ajudar a entender a vida, e a descobrir nela os apelos e os desejos de Deus!

Ler a Bíblia é lidar com um texto em que o(a) autor(a) está muito distante, é lidar com textos e autores(as) distantes. O texto está pronto, morto... Para revivê-lo precisa-se fazer perguntas a ele, e estas serão respondidas a partir do que nele se encontrar.


A Bíblia é como um espelho onde recorda-se o ONTEM, arruma-se o HOJE e se aponta pistas para o AMANHÃ.

A Bíblia é como uma daquelas carroças antigas, com rodas na frente e atrás. As rodas traseiras são o eixo ÊXODO – LIBERTAÇÃO (correspondente ao PRIMEIRO TESTAMENTO) e as rodas dianteiras são o eixo CRUZ – RESSURREIÇÃO (correspondente ao SEGUNDO TESTAMENTO).

Podemos tocar a conversa em frente com algumas perguntas e esclarecimentos:

O que significa a palavra BÍBLIA?

Palavra de origem grega, significa livrinhos, livros.

Em que LÍNGUA foi escrita?

Originalmente, a Bíblia foi escrita em três línguas: HEBRAICO, GREGO E ARAMAICO.

O Segundo Testamento foi todo escrito em grego.

A Bíblia que se tem em mãos é sempre uma TRADUÇÃO.

Quando FOI escrita?

Não foi escrita de uma vez só. O Primeiro Testamento foi elaborado num longo período de mais ou menos 1000 anos. O Segundo Testamento foi elaborado num curto período, de 100 anos. Primeiro se viveu, depois escreveu as experiências da caminhada.

ONDE a Bíblia foi escrita?

Em diferentes lugares: PALESTINA, BABILÔNIA, EGITO, ÁSIA MENOR, GRÉCIA e ROMA.

Foi transmitida e traduzida.

QUEM a escreveu?

Não foi uma única pessoa, mas várias pessoas contribuíram: mulheres, homens, idosos, jovens, pais e mães de família, trabalhadores de várias profissões, gente estudada e gente analfabeta, sacerdotes e profetas, pobres e ricos...Todos(as) unidos(as) por uma mesma preocupação: construir um povo irmão, onde reinassem a justiça, a fraternidade, a fé e o amor, e que não houvessem excluídos.

Bíblias diferentes?

Esta história vem de longe...Alguns séculos antes de Jesus aparecer e começar a sua missão, muitos judeus passaram a viver, por várias razões, em outras terras fora do território palestino, precisamente em Alexandria, no Egito, onde a língua predominante era o grego. Ao se mudarem, esta primeira geração de judeus, entendiam o hebraico de suas Escrituras e falavam o aramaico das ruas de Jerusalém; provavelmente, a segunda geração talvez com certa dificuldade o fizesse, mas a terceira geração nada sabia, só conhecia o grego.

O que fazer?

Nasceu a necessidade de se traduzir a Bíblia Hebraica, trazida pelos antepassados, para o grego. Esta tradução foi feita aos poucos e demorou muito tempo. As pessoas que escreveram os livros do Segundo Testamento, séculos mais tarde, utilizaram-se desta Bíblia Grega.

Esta Bíblia Grega foi chamada de SEPTUAGINTA OU TRADUÇÃO DOS SETENTA. Ela possui alguns livros a mais que não fazem parte da Bíblia Hebraica. São eles: TOBIAS, JUDITE, SABEDORIA, ECLESIÁSTICO, BARUC, os dois livros dos MACABEUS, e algumas partes de DANIEL e ESTER.

Os judeus acabaram ficando com duas bíblias: uma hebraica para os que moravam na Palestina e uma grega para os que viviam fora de lá.

Com o passar do tempo, os judeus do Egito escreveram mais alguns livros em grego (os que já foram citados), e a Bíblia ficou maior. Alguns judeus da Palestina quiseram comparar as duas bíblias, e fizeram uma lista (CÂNON)dos livros que para eles, eram sagrados. Ficaram de fora os tais livros escritos pelos judeus do Egito, que não deram muita importância para isso e mantiveram sua lista aberta.

Os protestantes, os pentecostais e os neo-pentecostais utilizam a versão mais curta, que é a Bíblia Hebraica, que foi traduzida por Martinho Lutero para o alemão no século XVI; nesta época acontecia a conquista do Brasil pelos portugueses.

A Igreja Católica Apostólica Romana adotou e utiliza a Bíblia Grega, de versão mais longa.

Avanços porém já foram constatados e existe, inclusive em português, uma TRADUÇÃO ECUMÊNICA DA BÍBLIA, feita por católicos, protestantes, ortodoxos e judeus (cf. TEB. São Paulo: Loyola, 1994).

É necessário lembrar que o trabalho de tradução é demorado e requer estudos aprofundados e muita dedicação para se manter fiel aos textos em hebraico, grego e aramaico, em contrapartida, possibilitar para o(a) leitor(a) uma tradução à altura do original.

PRIMEIRO E SEGUNDO TESTAMENTOS?

Ao longo do tempo, se habituou a chamar a Bíblia Hebraica de ANTIGO TESTAMENTO; ora a Palavra de Deus é sempre atual e dinâmica, não é estática nem presa ao passado.

Daí a necessidade e a urgência em que os exegetas (estudiosos) do mundo inteiro tiveram de encontrar um termo que não fosse pejorativo, todavia, dignificasse e mostrasse o respeito que se deve ter com a Palavra de Deus recebida pelo povo judeu e que os cristãos herdaram. O termo escolhido e usado tem sido: PRIMEIRO TESTAMENTO – corresponde à Bíblia Hebraica.

Em respeito ao povo judeu que ainda aguarda a vinda do Messias, os exegetas procuram usar o termo SEGUNDO TESTAMENTO para designar a história de Jesus de Nazaré e a das primeiras comunidades.

Mas as mudanças levam tempo e nossas comunidades, paróquias, dioceses, institutos de formação, pastorais e todas as pessoas que trabalham com a Sagrada Escritura usam o ANTES DE CRISTO (a.C.) e o DEPOIS DE CRISTO (d.C.), mas sugere-se usar ANTES DA ERA COMUM (a.E.C.) e ERA COMUM (E.C.).

O Primeiro Testamento é a porta de entrada do Segundo Testamento.

Somente se entende a mensagem, a prática, a pedagogia libertadora de Jesus, se em primeiro lugar, entender o que Deus disse ao povo de Israel em toda a sua história anterior ao próprio Jesus.

O Moreno de Nazaré é o cumprimento de todas as promessas feitas por Deus ao povo de Israel; esta é, a herança que recebemos.

Momento em pequenos grupos:

1. O que é a Vida para mim e para o grupo? Como escrever neste livro de Deus?
2. O que é a Bíblia para mim e para o grupo? Como entender este livro de Deus?
3. Primeiro Testamento, Primeira Aliança, Segundo Testamento, Segunda Aliança? Qual é a nomeclatura que mais chama a sua atenção e a do grupo? Por quê?

Roteiro de estudo preparado por Emerson Sbardelotti para o Instituto João Maria Vianney - Teologia para Leigos/as - Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida - Cobilândia, Vila Velha/ES - Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.








CRISTOLOGIA - ROTEIRO 01

INTRODUÇÃO A CRISTOLOGIA

ROTEIRO DE ESTUDO 01









Introdução

Essa é a questão fundante da Cristologia: Quem é Jesus?

“Quem dizem os homens que eu sou?” Essa pergunta de Jesus a seus discípulos ressoa através dos séculos até hoje e possui a mesma atualidade como quando colocada pela primeira vez em Cesaréia de Filipe .

O Evangelho de Marcos proclama (cf. 8,27-30), comparem as traduções e descubram as semelhanças e as diferenças:

Bíblia do Peregrino:
27 Jesus empreendeu viagem com seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe. No caminho perguntava aos discípulos: Quem dizem os homens que eu sou?
28 Responderam-lhe: João Batista; outros, Elias; outros, um dos profetas.
29 Ele lhes perguntou: E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: Tu és o Messias.
30 Então os admoestou para que a ninguém falassem disso .

Bíblia de Jerusalém:

27 Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe e, no caminho, perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?”
28 Responderam-lhe: “João Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas”.
29 “E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”.
30 Então proibiu-os severamente de falar a alguém a seu respeito .

Essa pergunta que Jesus fez há dois mil e onze anos ecoa de século em século para os cristãos de cada geração: Quem vocês dizem que eu sou? Quem é Aquele que curava até as doenças mais temidas da época, trazia os mortos de volta para a vida e libertava as pessoas da dominação do Mal? Por que matar tão cruelmente uma pessoa que andava fazendo o bem para todos? O que significa que ele voltou à vida e continuou a encontrar-se com seus seguidores?

A resposta a essa pergunta não pode ser simplesmente acadêmica. Não há definição teológica que esclareça as perguntas apresentadas a pouco. A resposta deve nascer da fé de um povo cristão peregrino. Existem situações políticas, sociais, religiosas, culturais e até antropológicas e psicológicas que exigem uma resposta aprofundada à antiga pergunta do Evangelho: Quem vocês dizem que eu sou?

Somos herdeiros de uma grande tradição. Nas Escrituras encontramos a Palavra de Deus e as respostas de fé dos primeiros cristãos. Herdamos também os escritos dos primeiros Padres da Igreja e dos grandes teólogos da Idade Média. Nos tempos modernos, antes e depois do Concílio Vaticano II, recebemos os livros de grandes teólogos que eram, ao mesmo tempo, pessoas santas e fiéis à tradição.

Agora, cinqüenta anos depois do Concílio, devemos enfrentar novas crises, exigências e desafios. O Espírito Santo exige de cada cristão e da Igreja toda uma resposta cristológica pessoal traduzida tanto em palavras quanto em ações.

Os primeiros cristãos tinham a mesma fé em Jesus, mas havia uma variedade de ênfases na maneira de exprimi-la:

Paulo: Jesus é o Cristo Crucificado e Ressuscitado.

Marcos: Jesus é o Messias Sofredor.

Mateus: Jesus é o novo Moisés, ele ensina a nova Lei.

Lucas: Jesus, cheio do Espírito Santo, é o Senhor de todos.

João: Jesus é a Palavra de Deus Encarnada.

Os escritores do Segundo Testamento aprofundaram a Cristologia a partir daquilo que Jesus fez no seu ministério e como ele nos salvou. Nos séculos posteriores, os teólogos gregos foram mais ontológicos, isto é, interessavam-se mais em quem era este Jesus que nos poderia salvar? Qual era a relação dele com o Pai? Ele era igual ao Pai? O Concílio de Nicéia afirmou que Ele era verdadeiro Deus, um no ser com o Pai. E o Concílio de Constantinopla definiu que a sua humanidade era genuína e integral.

Na Idade Média, os teólogos mais influentes aprofundaram e explicaram a Cristologia dos grandes Concílios Ecumênicos, especialmente o Concílio de Calcedônia.

Nos últimos duzentos anos houve uma revolução nos estudos sobre o Jesus histórico. Até então os evangelhos eram lidos como biografia. A partir daí, os estudiosos, começaram a lê-los como teologia. Essa mudança exigiu uma conversão .

Cristologia a partir do Nazareno

Encarnação como termo e não como começo da Cristologia.

A encarnação é o ponto de chegada, não o ponto de partida. É a culminância de todo o processo cristológico que começa bem embaixo com a pergunta que já as massas, tomadas de admiração e perplexidade, apresentavam: quem é esse? (cf. Mt 8,27; Mc 4,41; Lc 8,25). A base de tudo é o impacto que o Jesus histórico produziu: sua palavra com força, sua gesta libertadora, sua liberdade face à lei, sua autoridade soberna, depois, sua morte vergonhosa e sua ressurreição gloriosa. Tais fatos, especialmente a ressurreição, radicalizaram a pergunta que todos, apóstolos e discípulos, se planteavam: afinal quem é o Jesus que nós conhecemos e que “ouvimos e que vimos com nossos olhos e que nossas mãos apalparam” (1Jo 1,1)?

Os mais de cinqüenta títulos atribuídos a Jesus, dos mais simples – como mestre, profeta, bom – até os mais sublimes – como Filho de Davi, Filho do Homem, Filho de Deus, Salvador e Deus – visam dar conta da perplexidade e das interrogações suscitadas nas comunidades. Num espaço de tempo de quarenta ou cinqüenta anos após sua morte e ressurreição, Jesus atraiu para si todos os títulos de honra e glória humanos e divinos que circulavam pelo Império Romano. A esse processo de decifração chamamos de cristologia ontem e hoje, processo ainda inacabado, pois não terminamos de entender cabalmente a realidade do Nazareno vivo, morto e ressuscitado.

É preciso esclarecer o que se entende por “Jesus histórico” e por “Cristo da fé”. “Jesus histórico” é o Jesus que pode ser reconstituído pela investigação histórica, aquele homem que viveu e morreu na Palestina do século I, ocupada na época pelos romanos. Já o “Cristo da fé” é aquele anunciado pela Igreja depois da Páscoa, o Cristo dos símbolos de fé e das declarações dogmáticas.

É fácil perceber que esta distinção entre “Cristo da fé” e “Jesus histórico”, não é própria do Segundo Testamento nem da tradição eclesial posterior. Ela só aparece e se desenvolve no mundo moderno, com suas exigências de cientificidade, especialmente no campo da história .

Cristologia é um tratado de teologia, e define-se como o estudo e a discussão a respeito de Jesus de Nazaré, ou de Jesus como o Cristo.

1. Jesus como o Cristo – ênfase na divindade de Jesus – filiação divina, pré-existência – teoria da escola de Alexandria (cf. Jo 1, 1-18) – cristologia descendente.

2. Cristo como Jesus – ênfase na humanidade de Jesus – historicidade, seu caminhar na sociedade de seu tempo orientado para o Reino. Do histórico para o divino. É a teoria da escola de Antioquia (cf. Fl 2,6-11) – cristologia ascendente.

Significados: Messias – Cristo: Ungido – Consagrado (é um título e não um nome próprio – quem recebia era o rei, o profeta e o sacerdote).

Meshiah / Mashiah - Hebraico
Mshecha - Aramaico
Khristós - Grego

Bibliografia utilizada:

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 3.ed. rev.at.São Paulo: Paulus, 1994.

BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo: Paulus, 2000.

BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. Petrópolis: Vozes, 1972.

RUBIO, Alfonso Garcia. O Encontro com Jesus Cristo Vivo – um ensaio de cristologia para nossos dias. 11.ed.São Paulo: Paulinas, 2007.

VV.AA. A História da Palavra II. São Paulo: Siquem / Paulinas, 2005.

VV.AA. Descer da Cruz os Pobres – Cristologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2007.


Roteiro criado por Emerson Sbardelotti para as aulas de Introdução a Cristologia no Instituto João Maria Vianney - Teologia para Leigos/as - Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida - Cobilândia, Vila Velha - Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.













segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Artigo - JUVENTUDE: PROFECIA E ESPIRITUALIDADE

JUVENTUDE: PROFECIA E ESPIRITUALIDADE

Emerson Sbardelotti Tavares

RESUMO

Apresenta e sugere reflexões para questionamentos hodiernos sobre a juventude enquanto portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. Desenvolve a temática a partir da realidade em que está inserida a juventude, e como a mesma compreende e experimenta a profecia e a espiritualidade, acentuando-se sua vocação, disponibilidade para a missão, sua espontaneidade, seu humor, sua energia rebelde que a coloca em rota de colisão com antigas respostas que já não satisfazem sua curiosidade e sua objetividade, sua presença nos serviços da comunidade eclesial de base ou apenas na participação quase omissa e sem pretensão alguma nas Celebrações da Palavra e nas Celebrações Eucarísticas. Trabalha conceitos básicos mas necessários para uma Igreja que talvez não queira mais falar de injustiça e de pobres e que já esteja convencida que a palavra morreu. Se há jovens profetas, onde eles estão?



Palavras-chave: juventude, profecia, espiritualidade, comunidade, vocação, missão, injustiça, pobres.



ABSTRACT

Presents and suggests reflections for today's questions about youth while carrier prophecy and spirituality, in a globalised society, where there is an inevitable change values, increasing individualism, fundamentalism, violence and extermination of young people. Develops the theme from the reality in which is inserted on youth, and how the same understands and experiences the prophecy and spirituality, accentuating their vocation, availability for the mission, their spontaneity, their humor, its energy rebel who puts on a collision course with old answers that no longer satisfy your curiosity and your objectivity, their presence in the ecclesial community services or just almost silent and participation without pretense whatsoever in the celebrations of the word and in the Eucharistic celebrations. Works fundamentals but necessary for a church that might not want more talk of injustice and of poor and already convinced that the word died. If there are young prophets, where they, they are?

Keywords: youth, prophecy, spirituality, community, vocation, mission, injustice, poor.

1 INTRODUÇÃO

Juventude, profecia e espiritualidade são partes do grande memorial que se faz todas as vezes que encontramos um grupo de jovens, debatendo seus sonhos, utopias, esperanças, realizações, mas também a dor, o fracasso e o desânimo com tudo o que vem acontecendo na sociedade e dentro da Igreja. São três elementos indispensáveis para uma entrega feliz ao Reino da Vida. Elementos esquecidos ou mal interpretados, que a presente reflexão surge para dar respostas aos questionamentos hodiernos sobre a mesma enquanto portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. O presente artigo procura entender a temática a partir da realidade em que está inserida a juventude, e como a mesma compreende e experimenta a profecia e a espiritualidade, acentuando-se sua vocação, disponibilidade para a missão, sua espontaneidade, seu humor, sua energia rebelde que a coloca em rota de colisão com antigas respostas que já não satisfazem sua curiosidade e sua objetividade, sua presença nos serviços da comunidade eclesial de base ou apenas na participação quase omissa e sem pretensão alguma nas Celebrações da Palavra e nas Celebrações Eucarísticas. Trabalha conceitos básicos e necessários para uma Igreja que talvez não queira mais falar de injustiça e de pobres e que já esteja convencida que a palavra morreu. E se pode perguntar, tendo portanto uma pergunta de fundo: Se há jovens profetas, onde eles estão?

Arrisco em repetir as palavras do poeta :

A VIDA SE TECE DE SONHOS



A vida se tece de sonhos!

Sonhar é a melhor parte do viver!

Somos jovens do campo e da cidade,

na luta por justiça e solidariedade.



Só ama quem sonha!

Só sonha quem fala:

“por uma terra sem males e demarcada!”

“olha como o vento desfralda a wiphala!”



E não haverá miséria nem fome.

Será diferente o futuro de ricos e pobres

e não haverá miséria nem fome.

Cada um será chamado pelo próprio nome.



São os sonhos da resistência.

É a realidade que surge nova.

Somos jovens em busca da paz.

É paz consciente que da terra brota!



A vida se tece de sonhos!

E sonhar não custa nada.

Somos profetisas e poetas,

Somos gente e profetas!



E estamos aí pelas ruas e praças,

com sonhos, alegrias e virtude,

no Continente da Esperança,

somos Pastoral da Juventude.





2 O Espírito sopra onde quer...

“Não deixe cair a profecia!”

Foi essa a última mensagem que D. Hélder Câmara falou para o monge Marcelo Barros, poucos dias antes da sua morte. E esta, dita por aquele, que havia sido o grande profeta do século XX na América Latina e no Brasil, demonstra que o profeta deve ser um agoniado e que não aceita a morte da profecia, que não aceita que a chama profética se apague do coração e da alma da Igreja.

O Espírito sopra onde quer, e ninguém tem poder sobre ele, mesmo assim, é tempo de atentamente esperar os sinais dos tempos.

A juventude do século XXI no Brasil, tem consciência de que a profecia é uma ação pública de grande visibilidade necessária? Ela sabe que é a espiritualidade encarnada na vida do povo que a faz ser profeta de Deus? Onde estará a juventude, já que muitas vezes não está nas comunidades eclesiais de base, nos movimentos sociais, nos partidos políticos?

A juventude está no mundo. E quais seriam as visões distorcidas ou não que o mundo tem dela? Mas o que seria a juventude, a profecia e a espiritualidade?



2.1 Conceitos básicos, mas que foram esquecidos.

Sobre juventude há muitos pontos de vista para analisá-la; indico a classificação mais objetiva e sintética, construída em mutirão, que parte da perspectiva cristã católica e comprometida com milhares de grupos de jovens espalhados pelo Brasil.

Quatro visões de juventude :

1. Visão Biocronológica: define a juventude em termos de idade, etapa de transição. Aquela que tem de 15 a 24 anos .

2. Visão Psicológica: identifica a juventude com os conflitos pessoais em que tem a vida nas mãos, mas não tem o reconhecimento e a capacidade, etapa de construção da identidade: tempo de opções e definições.

3. Visão Sociológica: vê na juventude um grupo social e, dentro dele, diferentes setores.

4. Visão Cultural-Simbólica: procura ver a juventude em seu habitat cultural, produzindo movimentos culturais que acentuam a estética e o lúdico.

Para DICK (2003), estaria faltando, entre essas visões uma quinta: a Visão Jurídica ou Legal de Juventude – aquela que impera em muita leitura ou abordagem a respeito do tema .

FREITAS (2007), aponta que no Brasil, tanto as diretrizes da Secretaria Nacional de Juventude como o Plano Nacional de Juventude, definem como jovens aqueles que têm entre 15 e 29 anos. Mas o que é juventude?

A palavra juventude remete-nos a idéia de uma fase da vida, situada entre a infância e a vida adulta, entre a dependência – caracterizada pela primeira – e a autonomia – caracterizada pela segunda. Mas ainda que na maior parte das sociedades, ao longo da história, a idéia de fases da vida esteja de alguma forma presente, elas adquirem diferentes recortes e significados. A noção de juventude, assim como as das demais fases do ciclo de vida, apresenta-se como uma construção sócio-histórica. Em cada sociedade, em cada época histórica, e de acordo com os diferentes grupos que a compõem, as fases da vida assumirão características específicas quanto à duração de cada uma delas, às suas características e aos seus significados. Nem sempre a juventude aparece como fase claramente distinta da infância e da maturidade. [...] Percebe-se que a vida adulta parece estar cada vez mais difícil de ser atingida, o que provoca o alongamento da juventude. No mundo atual, porém, a juventude não se torna apenas mais longa; torna-se também mais complexa. [...] Na sociedade contemporânea, podemos dizer que os jovens e as jovens não apenas se preparam para o futuro: inserem-se no presente, inserem-se na vida adulta; não tem na escola seu único espaço: fazem-se presentes em diferentes âmbitos da vida social. Ocupando os mesmos espaços que os adultos, destes se diferenciam pelo caráter mais experimental de sua inserção. Rapazes e moças experimentam diferentes inserções nas mais diversas dimensões: do trabalho, da vida afetiva, da sexualidade, da cultura e do lazer, da participação política.



LIBANIO (2004), diz que há um olhar duplo: o da sociedade para o jovem e o do jovem para si mesmo. A sociedade olha o jovem e o considera em fase importante do desenvolvimento de sua personalidade. Mas também, o vê como alguém subordinado e ainda submetido a uma marginalização do trabalho e das funções políticas. O jovem olha a si mesmo e entra numa idade de apropriação das diferenças que o afetam no campo sociopsicológico, ao mesmo tempo que se prepara para enfrentar situações adultas diferenciadas, passando do mundo particularista da família para o mundo universalista do trabalho e das relações sociais. Os grupos de jovens ajudam a integrar o modelo de família com a vida em sociedade. A escola surge como lugar intermediário da socialização entre a sociedade e a família .

A CNBB (2007), afirma que, conhecer os jovens é a condição prévia para evangelizá-los. Não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece. Se busca conhecer a geração de jovens cuja evangelização se apresenta como um dos grandes desafios da Igreja neste início do século XXI. Destaque para a subjetividade, para as novas expressões da vivência do sagrado e a centralidade das emoções, enquanto elementos da nova cultura pós-moderna que influenciam no processo de evangelização dos jovens e no fenômeno da indiferença de uma parcela da juventude face à Igreja .

Sobre profecia há uma palavra-chave para entendê-la: resistência.

Resistência na etmologia, é o prefixo re, que aponta para uma duplicação, uma insistência, um desdobramento, uma outra vez; um substantivo derivado do verbo sistere: parar, permanecer, ficar, ficar de pé, estar presente. A esse verbo se associa também a stantia que invoca a estadia.

Resistência é insistir em estar - em permanecer, em ficar de pé.

O profeta fica de pé e anda, fala, grita, mas não se cala. Mesmo sendo assassinado, sua voz ecoa e incomoda.

Resistir é se opor: é lutar. Mas é também resistir à tentação, manter-se firme diante de uma força contrária.

Resistência a todo tipo de opressão causado pelo sistema, seja ele, monárquico, ditatorial ou democrático, de ontem e de hoje, que impede a abundância da vida e a construção do projeto de um outro mundo possível e melhor.

No Primeiro Testamento, a profecia aparece no período histórico da monarquia israelita e durante a tutela de assírios, babilônicos, persas, helênicos; são apontados os abusos cometidos pelos reis, monarcas e imperadores, durante a monarquia unida em Israel e depois com os reinos divididos: Israel e Judá, contra o povo. Contra esses abusos, os profetas levantaram suas vozes e fizeram ouvir a mensagem de Deus para aqueles governantes. Pois a profecia é um apelo de Deus à conversão. Ela não se separa da pessoa do profeta. Não é puro discurso, mas ação pública de grande visibilidade. O profeta quando se levanta, se levanta do meio do povo. E não fala somente com palavras, mas com toda a inteireza da vida. Contra o poder opressor o profeta se dirige ao rei e também o faz junto ao povo quando este se corrompe e se afasta da sua missão. O profeta é aquele que fala em nome de alguém. Fala aquilo que vê. Quanto maior a opressão, mais forte será a reação por parte da profecia.

No Segundo Testamento, a esperança dos pobres se realiza no Moreno de Nazaré e nas Primeiras Comunidades criadas após a sua ressurreição no contexto do império romano. Na época de Jesus, a Aliança com Deus estava falhando, e o primeiro sinal era justamente o aparecimento de gente cada vez mais empobrecida no seio do povo. O pobre, pelo fato de existir e de ser empobrecido, acusa a todos e se torna para o povo de Deus na boca e nas ações de Jesus uma denúncia vinda do próprio Deus. Jesus captou, como o fizeram os profetas antes dele, a voz de Deus escondida no clamor dos pobres. A pregação de Jesus não agradou a todos, pois, colocou-se do lado dos pobres, marginalizados, excluídos, violentados em sua dignidade enquanto seres humanos; mas os grandes não o quiseram, preferiram as suas próprias idéias, matando-o na cruz, com o consentimento dos romanos. Sua morte foi a de um maldito. Morreu gritando. E Deus, que ouve o clamor do seu povo, dos pobres, ouviu o grito de Jesus, desceu e o ressuscitou, transformando a cruz, de perdição, em único caminho para alcançar a salvação.

VASCONCELLOS & SILVA (2003), afirmam:

O termo profeta já foi definido como crítico religioso da realidade. É pessoa crítica porque não se conforma com o erro, a injustiça e a opressão. Sua crítica é religiosa porque se expressa em nome da transcendência de Deus. É crítica religiosa da realidade pois se destina a seres humanos precisos, em determinado momento histórico bem concreto. Está no coração da profecia, portanto, o seu caráter denunciatório. Em Israel, foi no período dos reis que a profecia falou mais alto. [...] Profetas eram pessoas totalmente imbuídas da Palavra de Deus e absolutamente convencidas de que essa Palavra devia perpassar toda a realidade circunstante. Por isso, em nome de sua vocação profética podem atuar em todos os setores da sociedade, e o fazem de maneira implacável. [...] Na política, a atuação de profetas foi decisiva. Como pessoas bem informadas, agiram de maneira concreta e por vezes até revolucionária. [...] A problemática social é um campo fértil para a atuação de todos os profetas. [...] A visão profética da história é peculiar, e única a capacidade de análise de conjuntura. Os profetas lêem o momento histórico, inspirando-se no passado e com os olhos voltados para o futuro. A história sempre é, para eles, mestra da vida e eles se tornam sujeitos da história que seu povo está vivendo. [...] Ao culto e à religião constituída, a profecia reserva duríssimos ataques. Profeta nenhum agüenta uma religião sem vida, ou seja, um culto sem justiça social. Por isso transmitem a repugnância que Deus sente das liturgias, das ofertas e dos sacrifícios que apenas acobertam vícios e enganos. [...] A denúncia profética atinge os mais diversos campos da vida do povo, tais como economia, exploração, despotismo, escravidão, terra e latifúndio, corrupção, política, julgamentos nos tribunais, violência e sangue derramado, roubo, extorsão, luxo e ócio. [...] A profecia nesses tempos antigos, manifestava-se regularmente junto ao povo. As pessoas citadas como profetas representavam momentos privilegiados dessa revelação, mas a linha profética não abandona o povo de Israel. [...] A profecia representa o lado explosivo do povo de Deus. Ela é sempre necessária. O esquecimento desse lado acarreta enormes prejuízos para a Igreja e para a sociedade .



Os profetas eram, portanto, pessoas com um caminho de vida iluminado pela Palavra de Deus. Ao serem chamados por Deus, puderam senti-lo, puderam experimentá-lo. Deus trabalhou normalmente dentro da mente deles, trabalhou sem pressa dentro do coração deles. Cada profeta teve uma vocação específica, contudo, possuem três elementos em comum: 1. Forte experiência de Deus. 2. Ao experimentar Deus se certifica de que é o próprio Deus que o chama para uma missão especial. 3. Esta experiência causa uma mudança profunda na vida do profeta.

Essa mudança profunda, que transforma o ser humano por inteiro, chamamos de Espiritualidade.

Há vários conceitos e definições a respeito de espiritualidade, pois há várias espiritualidades. A que se trabalha aqui é a espiritualidade cristã católica, “pé-no-chão”. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra espírito (ruah – em hebraico – cf. Gn 2,7; Jo 20,22).

CASALDÁLIGA & VIGIL (1996) dizem assim:

A espiritualidade não se opõe à matéria nem ao corpo nem à história. A espiritualidade de que a gente fala não acontece fora do mundo; vive-se aqui, “pé-no-chão”, no dia-a-dia da vida humana, trabalhadora, militante, de luta e festa, de vida e morte e de Vida! A espiritualidade de uma pessoa é o mais profundo de seu próprio ser: suas motivações maiores, seu ideal, sua mística de vida, a utopia que a dinamiza e empolga. Ter ‘espírito’ e ter ‘espiritualidade’ equivalem praticamente. ‘Espírito é substantivo concreto’. ‘Espiritualidade é o substantivo abstrato’ .



Espiritualidade é a capacidade do ser humano de dialogar com o Eu profundo e com o Totalmente Outro que lhe fala. É a possibilidade dada e recebida graciosamente de ouvir os apelos do coração e dialogar com o que nos transcende, o que nos inunda de mistério. Nesse sentido, a espiritualidade é a aura que sustenta os valores de solidariedade, compaixão, cuidado e amor, fundamentais para uma sociabilidade verdadeiramente humana, e se é verdadeira, portanto divina.

Essa mudança profunda, que transforma o ser humano por inteiro, na revelação bíblica se define como uma forma de estar no mundo. Interpretando todos os acontecimentos à luz da fé, e agindo por impulso do Espírito que nos liberta das idolatrias (idolatria é tudo aquilo que nos afasta do divino, que nos leva a desgraça) e nos transforma para criar comunidade solidária. Foi essa a vocação da humanidade que, realizada no Moreno de Nazaré, se vai concretizando pouco a pouco em nossa história de graça e de pecado. Ele vai nos inundando com a sua mística.

Quando falamos de mística estamos nos referindo ao mistério que nos faz viver. É o mistério que comunica, é o sentido que tende a construir uma fraternura na Terra: harmonia com a Natureza, com as coisas, entre nós, com Deus. A palavra mística tem sua raiz na palavra mistério (mysterion - em grego - cf. Mc 4,11; 1Cor 2,1.7; Cl 1,27; Ef 1,9). Espírito e Mistério são palavras que se completam, e no nosso caso, estão estritamente ligadas ao Mistério Pascal de Jesus e ao Espírito Santo de Deus que nos impulsiona e encoraja na caminhada cotidiana, de conversão, de recuos e avanços. Espiritualidade e mística, se não forem sentidas e bem usadas, se tornam fuga. E o que mais acontece hoje em dia é a fuga. Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a história e a utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa, uma grande celebração. E porque se faz uma grande celebração? Porque Deus é fiel e nós reconhecemos isso. Se Deus é fiel, nós até gostamos!

Mas quais são os passos para fazer um itinerário na espiritualidade?

Primeiro passo: fazer silêncio. A juventude deve perceber que é no silêncio que Deus se revela a nós e nós nos revelamos a Ele; deve entender que ao calarmos nossas vozes interiores e exteriores, todo o nosso ser se cala e aguçam-se nossos sentidos na escuta daquele que vem.

Segundo passo: pedir humildemente a ajuda do Espírito Santo. É necessário pedir ao Pai que mande o seu Espírito. Pois, sem esta ajuda do Espírito de Deus, não é possível descobrir o sentido que a Palavra de Deus tem para o seu povo hoje.

Terceiro passo: a Leitura Orante da Bíblia. É necessário subir os degraus:

Primeiro degrau: a leitura - o que o texto diz em si?

Segundo degrau: a meditação - o que o texto diz para mim, para você?

Terceiro degrau: a oração - o que o texto me faz dizer a Deus?

Quarto degrau: a contemplação - ver o mundo em que vivemos com os olhos de Deus, saboreando o jeito de ser e agir de Deus; o quanto Ele é bondoso e o que faz para nós.

Quarto passo: a reza do Ofício Divino das Comunidades – Ofício Divino da Juventude.

Quinto passo: o contato com a literatura especializada sobre o tema.

3 Se há jovens profetas, onde eles estão?

É uma pergunta difícil de ser respondida no atual cenário de Igreja, em que há a supervalorização de uma experiência da fé de fora para dentro da Igreja, sendo uma experiência muitas vezes fundamentalista, alienante, desapegada da práxis libertadora.

A juventude não se vê mais apaixonada pela mensagem da Igreja, eis a questão.

Ela está apaixonada pelos prazeres que o mundo pode lhe oferecer.

Se não há um amor verdadeiro da juventude pela Igreja e da Igreja pela juventude, não há evangelização da juventude, não há civilização do amor.

Não é de agora que a catequese (Primeira Eucaristia, Crisma, Catecumenato) não é assumida pela juventude, portanto não há uma continuidade do chamado iniciado com o Batismo; continua ainda nas mãos de adultos, bem intencionados, mas muitas vezes, desfalcados de conhecimentos históricos, bíblicos e teologais, de carinho, compreensão e entendimento do pensamento e dos sentimentos dos jovens espalhados nas paróquias deste País. Entender o mundo juvenil não é prática comum, não é para qualquer pessoa.

E o que dizer sobre os jovens que estão nas comunidades eclesiais de base e que assumem, com certos custos, a missão de evangelizar a juventude, e que não contam muitas vezes com o apoio da própria comunidade, de outros jovens, do padre, da religiosa, do bispo...são como águias estressadas, avistam o horizonte ao longe, mas já não conseguem bater suas asas e voar bem alto, próximas do sol...querem comer, mas já não sabem caçar. Reclamam mas não conseguem avançar.

Mesmo tendo uma estrutura bem montada na Igreja, com um belo trabalho por parte de uma juventude militante, não se consegue ouvir a voz da profecia. Quando isso ocorre, com certeza, por conta de uma ação isolada não atingiu o todo da Igreja, por todo o País. De fato, os gritos estão silenciados e não evidenciados. Há uma incoerência programada no meio da juventude militante de pensar que, por estarem nos lugares mais altos dentro da estrutura, que não devam mais participar e partilhar suas experiências nas suas comunidades e paróquias de origem, enfraquecendo toda a engrenagem de formação de novas lideranças juvenis. Se estes militantes (coordenadores e assessores), mais experimentados, assumem coordenações diocesanas, regionais e a nacional, mas não são conhecidos, reconhecidos, e não estão a disposição em suas bases, qual o crédito que terá, se dará, a tais testemunhos no seio das comunidades que os enviaram em missão? Afinal, o jovem é sujeito da História, é o sujeito de sua realidade, mas o protagonismo é da comunidade eclesial de base que chama em nome de Deus e envia para a evangelização, de dentro para fora da Igreja. Ao agirem, distanciando-se da base, pregando que ela não é importante, desvalorizando e caluniando o trabalho de outros coordenadores e assessores, por pensarem e agirem diferente, estão sendo os culpados pelo calar-se da profecia; e o que é pior, arrastam outros jovens a cometerem o mesmo pecado.

O cansaço e o desânimo tem levado a juventude a desistir muito facilmente da Palavra de Deus e de todo comprometimento que ela sugere para a humanidade. Tem levado-a para o encontro e o diálogo com várias outras ideologias que são diferentes daquelas oriundas de um ambiente religioso familiar onde a fé é mais cultural e tradicional do que pessoal.

Do ano de 2003 até o atual, se pode constatar um pequeno crescimento e melhora na educação e na saúde, beneficiando assim a juventude. Mas ainda é pouco. É necessário que se tome ações mais enérgicas. A juventude é chamada a ser portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do sexo desenfreado, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. A violência permeia a vida humana desde os primórdios, sendo que nos últimos anos aniquilou de várias maneiras a existência juvenil no Brasil. Se mata e se morre muito mais no Brasil, por conta das drogas lícitas e ilícitas, do trânsito, das DST, do que durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, um verdadeiro extermínio.

O jovem envolvido com a violência e sem uma estrutura familiar e de um círculo de amizades, não quer perder tempo encontrando um emprego em que o salário mínimo não irá lhe garantir a realização dos seus sonhos e prazeres imediatos, ele prefere ser uma “mula” do tráfico na escola em que estuda, não importando se irá ficar reprovado ou não; prefere tomar conta da “boca” exterminando os rivais e mantendo a polícia longe, pois assim terá poder material e pessoal. A violência tem povoado os noticiários, os programas de TV, as discussões no barzinho da esquina. Os crimes cometidos contra a juventude e pela juventude deixam aos poucos de serem números preocupantes, pois se tornam senso comum. E aumenta o coro daqueles políticos que querem diminuir a maioridade penal. Será que é essa a solução para todos os problemas?

As ações são tímidas e as vozes proféticas na Igreja não são ouvidas!

A injustiça está batendo à porta e não se faz nada.

Enquanto houver injustiça e pobres o Reinado da Vida não acontecerá.



4 Considerações Finais

Juventude é um tempo propício de educação, de encontro e diálogo, de oferta e descoberta. Tempo em que o amor avança para uma relação nova. Relação em que o jovem experimenta o Transcendente a partir de uma análise da própria vida e da própria vocação. Os mesmos passos que Deus percorreu para dar uma resposta adequada à sua vocação: ouvir, lembrar, ver, conhecer, descer, decidir, chamar. Eis o desafio da profecia e da espiritualidade juvenil.

Falamos aqui da profecia e da espiritualidade que borbulha dentro e para além de nossa Pastoral da Juventude: O Mistério Pascal do Moreno de Nazaré. Muitos jovens vieram antes de nós e testemunharam os ares da abertura do Concílio Vaticano II, de Medellin, de Puebla; se colocaram em missão e levaram o Evangelho a todos os cantos deste Continente. Somos frutos destes testemunhos proféticos; somos frutos da libertação de uma teologia européia para uma Teologia da Libertação, onde o centro é o Moreno de Nazaré e sua prática e pedagogia libertadora em direção aos pobres. Muitas cruzes foram levantadas, sangue inocente foi derramado por causa da Palavra germinada nestas terras continentais, de rostos indígenas, negros e brancos. Nossa profecia e espiritualidade é martirial. E com o sangue de nossos mártires não se pode brincar. Nossa profecia e espiritualidade é diaconal, é de comunhão, é de anúncio e de denúncia, é de defesa constante da Vida.

No Brasil, na Nossa América Afro-Latíndia, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro, um porto seguro, para as discussões sócio-políticas, religiosas e econômicas, que não podem e nem devem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: é o Caminho de Emaús a ser percorrido!

E não há caminho a ser percorrido sem cruz a ser carregada! Falar de profecia e espiritualidade nos dias atuais é encontrar em nós e na comunidade, o mistério que nos faz viver com os pés no chão, atentos aos apelos e aos clamores do povo, com o coração e os ouvidos bem abertos para o que Deus tem a nos dizer.

Que nossa juventude possa retomar a profecia ao experimentar do cálice...há muita coisa a ser feita...o Reino ainda não chegou...mas continuamos na luta!

Na Paz militante do Reino da Vida! No Sonho do Outro Mundo Novo Possível!



5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



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